Magistrado Reinaldo Portanova

 

“E poesia? Com poesia se paga?
E se tem preço, quanto vale?
O tempo que se gasta na inspiração que não vem?
Ou vem com mãos insones,
Quase sem luz
Sem som,
Hesitante com a fé.

A palavra lavra a pá,
Sulca a pele, as manhãs, os ossos do ofício,
O sacrifício entre a rima e o poema: desvão dos dedos
Da vida, do lápis e da substanciação.

(Que preço paga quando dói a dor?
O distante amor inevitável?
Secreto e vasto como um altar?)

João vê o verso. O verso vê João,
Ambos quintinando a pedra brava
Em busca da essência do azul, sua fonte e resplendor.

Partícula expletiva, quanto vale um poeta?
Quanto, enquanto vivo?
Quanto, quando morre?

Poeta não morre.
Ele não é gente como a gente,
Que precisa pagamento, obituário, procissão.

Poeta é apenas um mal-súbito…”

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